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Arquitetura hospitalar na era da telemedicina

Arquitetura hospitalar na era da telemedicina

28 de março de 2019

O fim de janeiro foi bem agitado no universo da saúde. O assunto telemedicina ganhou espaço assim que o Conselho Federal de Medicina divulgou que até maio deste ano entraria em vigor a Resolução CFM nº 2.227/18, apresentando novas regras para o uso da prática virtual. Menos de um mês depois, no dia 22 de fevereiro, o CFM voltou atrás, declarando que o tema continuaria seguindo a resolução datada de 2002, enquanto a instituição atende ao pedido de revisão do conteúdo feito pela classe médica.

 

Em reportagem publicada no site do Senado Federal, no último 18 de março, a assistência médica a distância também entrou na agenda da Comissão de Assuntos Sociais – CAS. A ideia é debater sobre os benefícios dos avanços tecnológicos versus o impacto na relação entre paciente e médico.

 

Segundo a matéria de capa da revista Veja, “A Era do Dr. Robô”, nos Estados Unidos, que adota a telemedicina há mais de 30 anos, foi inevitável o esfriamento do relacionamento entre o assistido e o especialista. Tanto que a partir de 2000, faculdades americanas criaram disciplinas para reverter essa situação. E tem dado certo.

 

Telemedicina: mercado rentável em franca expansão

Relatório divulgado em 2018 pela Mordor Intelligence – empresa indiana que desde 2014 fornece dados a diferentes mercados – prevê que a telemedicina global valerá mais de US $ 66 bilhões até o final do ano de 2021. O estudo aponta algumas tendências que moldarão o futuro do setor de saúde.

 

Uma delas refere-se à coleta e análise de dados do paciente. As informações clínicas são capturadas automaticamente pelo uso de serviços de telemedicina, como sensores e aplicativos móveis. No futuro, a avaliação de dados de pacientes certamente ajudará a melhorar os tratamentos de telemedicina como um todo e também permitirá a identificação de fatores de risco para certas doenças, auxiliando os médicos a recomendar tratamentos profiláticos.

 

A pesquisa destaca também a mobilidade: 80% dos médicos em todo o mundo já usam smartphones e aplicativos médicos em sua prática profissional. E isso já acontece no Brasil. Matéria de A Folha de SP, de 19 de fevereiro, relata que informalmente muitos médicos já fazem consultas on-line por meio de plataformas como WhatsApp, Messenger e Facetime: “pacientes mandam fotos de problemas na pele para dermatologistas, por exemplo, resultados de exames e dúvidas sobre a prescrição de tratamentos e, em troca, recebem orientações”. Outros serviços, como as chamadas teleconsultorias e teletriagens, também vêm sendo ofertados por hospitais e planos de saúde.

 

Desospitalização, um dos benefícios

Reportagem recente do portal G1 revelou que um projeto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) já está aproveitando dessa tecnologia para otimizar a fila de análise on-line de exames e de laudos do Sistema Único de Saúde – SUS. O texto traz o depoimento da dona de casa Rosana Guilherme. Depois de dois infartos e uma cirurgia, estava há quatro meses à espera de um ecocardiograma. Com o atendimento a distância, conseguiu fazer o exame simplificado em um posto de saúde em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

 

“Acredito que o acesso à telemedicina em médio prazo provoque a desospitalização, isto é, só vai ser internado quem realmente precisa”, explica Marcelo Boeger, presidente da Sociedade Latino-Americana de Hotelaria Hospitalar (SLAHH) e consultor da Hospitalidade Consultoria. Segundo o especialista, um dos pontos mais positivos da prática é a possibilidade de trabalhar com instituições de saúde que se localizam em áreas distantes dos centros urbanos. “Já existem hospitais renomados em São Paulo que contam com um grupo de médicos que apoia colegas que atendem nesses estabelecimentos remotos. Juntos eles decidem se a pessoa precisa ou não operar”, conta Boeger, afirmando que no ano passado um número significativo – algo por volta de 40 cirurgias – deixou de acontecer nesse hospital isolado após as consultas via web.

 

Telemedicina: protocolo de Manchester

Como consequência, houve melhor direcionamento de recursos, certamente utilizados em outros procedimentos clínicos. Para entender melhor, o atendimento a distância funciona como o conhecido Protocolo de Manchester, sistema de triagem que ajuda a organizar a ordem de atendimentos dos pacientes quando chegam a uma instituição de saúde, como o pronto-socorro.

 

A técnica é simples: a enfermagem, de acordo como os sinais e sintomas que o paciente apresenta – dor, estado físico, complexidade etc. –, classifica-o em cinco cores. Cada uma simboliza o estado em que a pessoa se encontra, determinando a gravidade do caso e o tempo em que receberá atendimento: vermelho (0 min), laranja (até 10 min), amarelo (até 60 min), verde (até 120 min) e azul (até 240 min).

 

Ao seguir essa critério, percebeu-se que cerca de 45% das pessoas não necessitavam passar pelo pronto-socorro, economizando tempo e recursos. É essa a linha de raciocínio da telemedicina: muita gente não precisa se deslocar para receber o atendimento clínico.

 

Projeto arquitetônico em prol da telemedicina

No Brasil, as ações em telemedicina vêm sendo realizadas desde a década de 1990, porém de maneira tímida. Um país com dimensões continentais tem muito a ganhar com a formação e a consolidação de redes colaborativas integradas de assistência médica a distância.

 

Como a arquitetura pode contribuir com isto? Já é possível observar mudanças, tanto na organização e utilização do espaço quanto nas instalações das edificações.

 

Vale citar o exemplo relatado pela arquiteta Eleonora Zioni, em seu livro Planejamento Físico-funcional e Hotelaria em Saúde. A profissional conta que o Hospital Mercy Virtual Care Center – inaugurado em 2015 e com 11 mil metros quadrados de área em Chesterfield (EUA) – foi concebido sem nenhum leito nem a presença física de pacientes: os 300 médicos atendem 100% por telemedicina.

 

A arquitetura contemporânea tem de acompanhar o desenvolvimento tecnológico, integrando as instalações tradicionais às novas potencialidades de aplicações. Isso implica na necessidade de um novo espaço – tanto físico quanto virtual – que se adeque a esse momento.

 

Telemedicina: a distância não interfere na qualidade do atendimento

Há dois anos ACR Arquitetura desenvolveu o conceito de quatro tipos de consultório para o ambulatório do Hospital Israelita Albert Einstein em Alto de Pinheiros, em São Paulo, o primeiro a entrar em operação.

 

Um dos ambientes de atendimento é destinado à telemedicina: o cliente – acompanhado de um médico generalista ou técnico – se senta à mesa de frente para um telão. Do outro lado, está um médico especialista que remotamente conduz a consulta. Os dois espaços onde se encontram o cliente e o médico são espelhos, isto é, apresentam os mesmos acabamentos, móveis e cores, gerando a sensação de ambos estarem na mesma sala. O objetivo é ajudar o cliente na sensação de que ele não perdeu nada, aproximando a experiência do atendimento virtual do real.

 

A experiência bem-sucedida indica que o projeto arquitetônico pode sim influenciar positivamente o paciente, fazendo-o se sentir confortável e acolhido até mesmo no momento em que recebe orientação clínica a distância.

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