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Gentrificação: rica, branca & verde.

Gentrificação: rica, branca & verde.

27 de fevereiro de 2019

A apresentação do livro Gentrificação Verde: sustentabilidade urbana e a luta pela justiça ambiental, de Kenneth A. Gould e Tammy Lewis (clique aqui para ver), professores de Sociologia e Ciências Ambientais e da Terra na City University of New York – CUNY, chamou a atenção na Fapesp Week New York, que ocorreu em novembro do ano passado.

 

“Rica, branca & verde”. Foi com essa frase que os especialistas adjetivaram a história recente do canal Gowanus, em Nova York, que passou por um processo de recuperação ambiental. Oferecendo melhores condições de infraestrutura e mais qualidade de vida, o bairro passou a atrair pessoas com outro perfil, mais endinheiradas.

 

Em sua palestra, Tammy explicou que a classe trabalhadora e os mais pobres foram empurrados para fora da região, por causa da consequente elevação dos preços dos imóveis. “Sem intervenção de políticas públicas orientadas para a equidade, ações de urbanismo verde e negativamente redistributivas são ruins para as principais cidades globais”, explicou a pesquisadora, que continuou: “as iniciativas de políticas verdes precisam ser acopladas a iniciativas de políticas de habitação justas”.

 

Gentrificação: revitalização urbana ou segregação urbana?

O que ocorreu foi a revitalização de espaços urbanos – em que pode ou não haver a troca de paisagens de caráter popular por construções típicas de áreas nobres –, levando à valorização e ao enobrecimento de uma área anteriormente considerada degradada ou subutilizada.

 

É aí que acontece a gentrificação: a repaginação faz o lugar “custar mais caro”, afastando os moradores originais e atraindo outros. Em texto publicado pelo site UOL, Rodolfo F. Alves Pena, mestre em Geografia, destaca que é importante considerar “que a transformação não representa necessariamente uma mudança no padrão de vida da sociedade, haja vista que a população mais pobre, ao emigrar dessas regiões, passa a habitar outras localidades, geralmente ainda mais periferizadas. Essa ocorrência é chamada de segregação urbana”.

 

O acadêmico destaca a Favela do Vidigal, no Rio de Janeiro. Originalmente formada a partir de invasões, o local está se transformando aos poucos: barracos estão cedendo espaço para novas casas, mudando o perfil dos ocupantes.

 

Gentrificação X defesa de inquilinos locais

Há quatro anos, em uma coluna do jornal britânico The Guardian, Kalima Rose, vice-presidente do PolicyLink Center for Infrastructure Equity – instituto de pesquisa e ação que promove a equidade racial e econômica –, escreveu que “os gentrificadores deveriam apoiar a defesa de inquilinos locais e organizações que prestam ajuda a moradores de rua. O fortalecimento da proteção dos locatários é fundamental para reduzir a vulnerabilidade. As leis básicas, como o controle dos preços de aluguel – causa justa para desalojamento e proteções contra o assédio imobiliário – são ferramentas cruciais para estancar o fluxo de saída de famílias vulneráveis”. E mais: segundo Kalima, ainda não se conhece “processos de gentrificação que não expulsem os moradores originais”.

 

Para ilustrar a situação, Rodolfo F. Alves Pena explica que algumas vezes a gentrificação é feita pelo próprio Estado. Ele cita que na África do Sul, durante a Copa, pessoas foram removidas e deslocadas para moradias populares, e seus lares pobres foram substituídos por outras construções. Aqui no Brasil, na Copa do Mundo de 2014, a região da zona leste de São Paulo passou por uma ressignificação após a construção do estádio de futebol batizado de Itaquerão e a consequente valorização abrupta do valor do solo.

 

Gentrificação: interesse privado X interesse público

Em maio de 2017, Emmanoel Costa, cofundador do Instituto de Urbanismo Colaborativo – Courb, por meio de um artigo assinado pelo jornalista João Mello, convidou o leitor a pensar: por que eu deveria me preocupar com a gentrificação? O geógrafo e mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade pondera que há um debate profundo a respeito de a gentrificação ser boa ou ruim.

 

Ele desconfia que é mais nociva do que saudável. E explica: “por constituir um processo típico de especulação imobiliária, a gentrificação precisa de muito investimento e respaldo do poder público para atender a uma demanda de interesse privado. Ou seja, a cidade tem propensão a ser planejada de acordo com a vontade do interesse privado, que não necessariamente é a mesma vontade da população, e nem sempre vai ao encontro das demandas defendidas por especialistas em planejamento urbano”.

 

Porém Emmanoel destaca que estudos recentes feitos nos Estados Unidos revelam que moradores antigos de bairros gentrificados não apenas permaneceram na região como conseguiram ampliar suas rendas.

 

Elevado Presidente João Goulart (minhocão) em São Paulo: exemplo de gentrificação?

Será que esse é o futuro do Elevado Presidente João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão? A famosa via da cidade de São Paulo, construída em 1971, será transformada no Parque Municipal do Minhocão. O anúncio foi feito pela Prefeitura no último 21 de fevereiro.

 

Segundo reportagem do site G1, a primeira etapa, com a instalação dos acessos, está prevista para ser entregue até dezembro de 2019. A segunda fase, já com as obras para instalação do Parque, será iniciada no segundo semestre deste ano, com previsão de término até dezembro de 2020 – o custo estimado é de R$ 38 milhões e será bancado com recursos municipais.

 

Tal proposta vem sendo discutida desde a gestão anterior, que aprovou, em 2014, novo Plano Diretor que planejava a desativação do Minhocão. Em fevereiro do ano passado, foi finalmente criada a lei que garante a criação do Parque Municipal do Minhocão.

 

Desde então há quem defenda a demolição total do viaduto e aqueles que desejam seu fechamento total para o uso recreativo, o que acabou acontecendo.

Como ficará o trânsito no entorno? O que acontecerá com a via debaixo do Minhocão? Haverá especulação imobiliária? Quem mora na região vai ou não permanecer por lá? São muitos questionamentos, porque as pessoas temem a gentrificação.

 

Esse será o grande desafio da gestão municipal (o mesmo em qualquer lugar do mundo): como recuperar uma área degradada sem gentrificá-la? Sabe-se que existem instrumentos e políticas públicas – como demarcação de Zonas Especiais de Interesse Social e estabilização dos aluguéis –, porém essas medidas precisam ser acionadas a tempo para garantir a permanência das populações mais vulneráveis.

 

Quem mora em São Paulo terá a oportunidade de acompanhar de perto esse processo, que certamente não agradará a todos.

 

 

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